«Queremos ensinar a amar, servir e sofrer pela Igreja», Mons. Gilles Wach - Corrispondenza romana
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«Queremos ensinar a amar, servir e sofrer pela Igreja», Mons. Gilles Wach

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(Quinta-feira, Dies Irae – 12 de novembro de 2020)

1. Muito obrigado, Monsenhor Wach, por nos conceder esta entrevista em exclusivo e aceite as nossas cordiais saudações pela reeleição de V. Rev.ª enquanto Superior-Geral do Instituto de Cristo Rei Sumo Sacerdote, do qual, com o Rev. P. Philippe Mora, foi fundador, em 1990, no Gabão. Quais serão as prioridades de V. Rev.ª, enquanto Superior-Geral do Instituto, para os próximos seis anos?

Sou eu quem muito vos agradece por terem demonstrado tanto interesse pelo nosso pequeno Instituto. Digamos que não tenho prioridades para os próximos seis anos, senão as mesmas dos últimos trinta anos, ou seja, a vontade de melhor servir, no nosso humilde lugar, a Santa Igreja de Deus, que é a face de Cristo no mundo de hoje. Isso significa que, no que nos diz respeito, devemos viver cada vez melhor as nossas Constituições de Cónegos, para trabalhar cada vez mais pela nossa santificação, porque o mundo de hoje precisa tanto de santos sacerdotes.  

   


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2. O Instituto é uma Sociedade Apostólica de Direito Pontifício que integra sacerdotes, irmãos, irmãs e leigos que partilham do seu carisma fundacional. Neste momento, quantos membros integram o ICRSP? A que apostolados se dedicam os sacerdotes? Quais são os planos de expansão para o futuro próximo?           

O nosso Instituto conta, actualmente, com cento e trinta sacerdotes, uma centena de seminaristas, trinta oblatos, cerca de quarenta candidatos que se preparam para entrar no seminário e mais de sessenta irmãs. Os cónegos do Instituto desenvolvem o seu apostolado com a preocupação de promover todos os valores sobrenaturais e humanos da civilização cristã. Portanto, de acordo com o artigo 6 das nossas Constituições, aplicam-se a ser «pastores e pregadores, educadores, professores e missionários ao mesmo tempo». Vão nesse sentido as nossas obras paroquiais (grandes e pequenas realidades como Baladou, no centro da França, ou Detroit, nos Estados Unidos da América, com mais de mil fiéis) e as nossas obras escolares, espalhadas em vários locais como Versalhes (com cerca de oitocentos alunos) e Bruxelas (uma escola internacional de setecentos alunos). Também temos uma grande paróquia na capital do Gabão, para o acompanhamento de centenas de almas, e também diferentes missões na selva apenas para dezenas de pessoas: como podem ver, o apostolado constitui-se de diferentes e múltiplas formas. São Francisco de Sales, um dos nossos principais patronos, ajuda muito os nossos sacerdotes mediante a sua espiritualidade feita de equilíbrio, harmonia e imensa caridade. Não temos um plano, nem um objectivo numérico, porque já nos é difícil responder aos muitos pedidos dos bispos que desejam ter um apostolado nas suas dioceses. Actualmente, parece-me necessário dar prioridade à vida comunitária dos nossos sacerdotes, seminaristas e irmãs; uma expansão muito rápida prejudicaria, sem dúvida, o equilíbrio da sua vida consagrada e comunitária.       

3. O ramo feminino, as Irmãs Adoradoras do Coração Real de Jesus Cristo Sumo Sacerdote, está em franca expansão. Na sua opinião, a que se deve este feliz acontecimento, nomeadamente num momento tão difícil e em que são cada vez mais as Congregações e Institutos Religiosos a encerrar casas por falta de vocações? 


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Nunca pensámos em ter uma comunidade de irmãs. Foi a Divina Providência que, de modo claro, certo e repetido, nos obrigou a atender ao pedido de algumas jovens que desejavam consagrar-se ao Senhor no Instituto. Revelo um segredo: recordai-vos que somos salesianos e que nunca devemos ultrapassar a Providência, como dizia o nosso querido patrono. De facto, segui este grande princípio no governo do Instituto: nunca tive grandes projectos; procurei apenas corresponder às expectativas da Divina Providência, seguir a direcção que o Senhor nos indicava e de realizar o que nos pedia. Creio que todas estas jovens vocações femininas respondem a uma particular atracção pela grande e bela espiritualidade de São Francisco de Sales, feita de harmonia, bondade, beleza e caridade, num mundo que se está a desenvolver nos antípodas destes nobres valores. Na escola de São Francisco de Sales, sentimo-nos mais perto de Deus e, logo, mais perto dos cristãos tantas vezes perdidos neste mundo de desordem, violência e divisão. O Instituto foi fundado há mais de trinta anos e o ramo feminino há vinte anos; devo dizer que, desde que temos as Irmãs Adoradoras, a qualidade das vocações e também dos apostolados melhorou muito, o que demonstra, para aqueles que ainda não acreditam, a necessidade fundamental da oração. Efectivamente, as nossas irmãs dedicam-se, todos os dias, a longas horas de adoração eucarística, ao canto do ofício divino comunitário e, em algumas casas, também exercem um pequeno apostolado com os nossos cónegos. Rezam, de modo especial, pela santificação dos sacerdotes, porque precisamos, sobretudo, não de agitadores, nem de animadores, nem de promotores, mas de sacerdotes santos, humildes, castos e devotos. Temos sete casas das Irmãs Adoradoras em todo o mundo; algumas delas podem acolher retiros espirituais e uma delas tem uma pequena escola. O nosso noviciado localiza-se em Nápoles, onde fomos acolhidos muito calorosamente pelo Arcebispo, o Cardeal Crescenzio Sepe.

4. A Sociedade do Sagrado Coração, dirigida especialmente aos fiéis leigos que se identificam com a missão apostólica do Instituto, é a expressão de que, na Igreja, há cada vez mais fiéis e famílias a procurarem a fidelidade ao Santo Evangelho por meio dos ensinamentos perenes da Santa Igreja e da Liturgia Tradicional, mormente através do Santo Sacrifício da Missa. Quantos são, neste momento, e onde se concentram maioritariamente estes membros da Sociedade? Que tipo de apostolado desenvolvem? Também são semente de vocações sacerdotais e religiosas?      

A Sociedade do Sagrado Coração reúne muitos fiéis em todo o mundo, cuja primeira missão é a de rezar pelos seus cónegos. Na Sociedade do Sagrado Coração, os membros também procuram santificar-se, vivendo autenticamente a sua vida cristã, segundo os princípios do nosso primeiro grande patrono, São Francisco de Sales. Num mundo ferido, que o nosso Papa chama de hospital de campanha, a espiritualidade salesiana parece-me de grande actualidade. Na verdade, o subjectivismo reina em todos os lugares e, para satisfazer os caprichos dos tempos, transige-se sobre a verdade, enquanto São Francisco de Sales não trai, de forma alguma, a verdade, mas procura o vocabulário, o modo de fazer as coisas – que podem variar até ao extremo – para trazer o assunto gentilmente, progressivamente e eficazmente à verdade divina. O nosso lema pode ajudar-vos a compreender quem somos: Veritatem facientes in caritate. Hoje, a verdade dissolve-se na filantropia humana da praxis, da falsa pastoral. Para reagir, há quem queira defender a verdade; mas sem a caridade, disse Pascal, «a verdade é um ídolo diabólico, porque tem a aparência de uma obra virtuosa». Devemos, pois, manter as duas coisas: a verdade e a caridade não são, de modo algum, opostas entre si; pelo contrário, unem-se na pessoa divina de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei e Sumo Sacerdote. Como escreveu Santo António de Lisboa: «Quem prega a verdade com amor, professa Cristo. Quem, por outro lado, silencia a verdade na pregação, renega Cristo».        


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5. O Seminário do Instituto, sediado em Gricigliano, tem quantos seminaristas? À semelhança do franco crescimento do ramo feminino, o que pode levar um jovem católico a deixar tudo para se consagrar a Deus, através do sacerdócio, no Instituto de Cristo Rei?       

Actualmente, temos pouco mais de uma centena de seminaristas, 80 em Gricigliano e os demais espalhados pelos nossos apostolados, para fazer um ano de estágio com os nossos cónegos. Além disso, há quase quarenta jovens que se estão a preparar, nas nossas casas, para entrar no seminário. Tenho sempre presente as palavras de Nosso Senhor: Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós. A vocação é um dom gratuito de Deus, não uma pretensão dos homens. É certo que os nossos santos patronos são de grande importância, exercem uma certa força de atracção sobre as vocações jovens. São Francisco de Sales propõe ao mundo uma espiritualidade baseada no papel preeminente da caridade; São Bento dá a máxima importância ao culto divino e à bela virtude da humildade; São Tomás de Aquino brilha pelo seu fervoroso amor à Sagrada Doutrina. Finalmente, enfatizamos a importância da vida canonical e, por conseguinte, comunitária e fraterna, que sustenta os nossos cónegos num mundo tantas vezes hostil à Igreja e ao sacerdote. 

6. Pessoalmente, o que contribuiu para a sua vocação sacerdotal e, posteriormente, para a fundação do Instituto de Cristo Rei Sumo Sacerdote?       

Pessoalmente, recebi o chamamento do Senhor com cinco anos e meio de idade. Perseverei sempre assim; também frequentei o seminário menor, que, infelizmente, encerrou em 1968. A Divina Providência, graças a Dom Roy, Abade de Fontgombault, conduziu-me a Génova, à diocese do grande Cardeal Siri, para receber uma formação sacerdotal impregnada de Romanidade. A altíssima personalidade do Cardeal Siri ficou fortemente gravada no meu coração e na minha mente como um grande e humilde servidor da Igreja. Tenho a certeza: do Céu, ajuda-nos e protege o nosso Instituto, agindo, através da sua eminente figura, sobre os nossos clérigos, ajudando-os a libertar-se do individualismo e do egoísmo, que reinam demasiado despóticos, hoje, entre os jovens e até no clero. No início, a fundação do Instituto foi apoiada e encorajada por um outro grande e santo Cardeal, o Cardeal Mayer. Tratava-se de formar os futuros sacerdotes para amar e servir a Igreja, longe das vãs polémicas humanas que destroem a vida espiritual, contaminam os corações e os impedem de trabalhar para a glória de Deus e o bem das almas. Devo dizer que as palavras proferidas por João Paulo II – por quem fui ordenado sacerdote –, no alvorecer do seu pontificado – Não tenhais medo! –, me encorajaram e ainda me encorajam, não obstante as tribulações e as provações, a trabalhar na vinha do Senhor, como disse Bento XVI na noite da sua eleição.  

7. Sendo um dos Institutos criados à luz da extinta Comissão Ecclesia Dei, o ICRSP é, por vezes, associado a um chamado “desvio de esquerda”. Explicámo-nos: ouve-se, por vezes, em certos círculos tradicionalistas, um tom algo crítico acerca da posição que se deve ter face à Santa Missa vetus ordo. Segundo esta atitude, teria havido dois desvios: um “desvio de direita”, isto é, protagonizado por aqueles que assumem uma posição claramente sedevacantista, e um “desvio de esquerda”, ou seja, a posição assumida por aqueles que recorrem à Ecclesia Dei para que os bispos reconheçam o direito que os fiéis têm de aceder à Santa Missa Tradicional. Este acordo com a dita Comissão, actualmente sob alçada da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, suporia uma contemporização com os erros do Concílio Vaticano II. Como é que V. Rev.ª vê o problema e, na sua opinião, qual deve ser a posição do fiel perante esta realidade?

Devo dizer que a vossa pergunta me aflige muito, porque revela uma crise que não se pode negar e diante da qual devemos ter as ideias claras. No entanto, atenção: fiquemos sempre no nosso lugar! Eu faço parte da Igreja Discente e não da Igreja Docente, como diz a Teologia católica. Posso, então, pôr em acção a minha inteligência e as minhas possibilidades diante do triste espectáculo do nosso tempo, mas sempre no meu lugar, que, como sabeis, é pequeno, isto é, Superior-Geral de um modesto Instituto, uma modesta Sociedade de Vida Apostólica. Desde o início da fundação do Instituto, transmitimos aos membros da nossa comunidade uma visão sobrenatural da Igreja, ou seja, o Corpo Místico de Cristo. Realidade estupenda, divina e humana ao mesmo tempo! Que grande mistério! Mas um mistério que se contempla com uma alma sobrenatural, não à maneira do historiador, do filósofo, do sociólogo. Todos eles poderão ter uma visão bastante acurada desta realidade, mas o seu entendimento ainda será parcial, incompleto e inadequado: faltará sempre algo. A razão para isso é simples: o sobrenatural não pode ser diminuído ao nível dos fenómenos apenas naturais. Então, compreendeis que o nosso agir é muito diferente. A Igreja não é um partido político, nem uma corrente filosófica; em Gricigliano, não queremos ensinar aos nossos futuros clérigos que haveria direita, esquerda e divisões de todos os tipos. É triste o espectáculo dos revolucionários de direita que fazem guerra aos de esquerda. Nós não somos revolucionários, muito pelo contrário: somos contra-revolucionários. Aos queridos fiéis, aconselho: primeiro, que vivam sempre bem a sua vida cristã; segundo, que rezem muito; terceiro, que solicitem à autoridade legítima o seu direito para aceder à liturgia romana tradicional, um direito claramente proclamado pela Igreja através das palavras dos últimos papas. Se nós, no nosso lugar – e sublinho no nosso lugar –, cumprirmos o nosso dever, podemos forçar os outros a cumprirem, por sua vez, o seu dever. Ao proclamar as verdades da fé diante dos piores hereges, Santo Agostinho gostava de dizer: «A verdade é como um leão. Não precisarás de defendê-la. Deixa-a livre. Defender-se-á sozinha». Em Gricigliano, queremos ensinar a amar, servir e sofrer pela Igreja, e, talvez também, da Igreja, como dizia o Padre Clérissac, O.P., mas nunca os ensinaremos a ser revolucionários. Até agora, não recebemos nenhuma missão do género! Aqueles que mencionastes talvez não o saibam, mas são verdadeiros modernos! Algo que nós não somos!         

8. A Liturgia Tradicional está fortemente impregnada de simbolismos, cuja beleza é reconhecida até por não-crentes (por exemplo, o canto gregoriano). O ICRSP preza, e bem, toda a estética litúrgica nas Missas e nas ordenações sacerdotais. Para as mentes modernas, e até mesmo para um incontável número de eclesiásticos dos mais diversos níveis, isto, actualmente, já não faz sentido. Em Novembro de 2017, quando o Instituto fez a sua peregrinação a Fátima, por ocasião dos cem anos das Aparições, todos os milhares de assistentes das várias celebrações ficaram encantados com a beleza litúrgica. No entanto, tanto nas redes sociais como em alguns jornais, houve críticas injuriosas e pejorativas vindas, sobretudo, de meios eclesiásticos. O actual Bispo do Porto, à época Ordinário Militar, afirmou que se assistiu a «uma notória involução, a um evidente revanchismo, a um comovedor conservadorismo que está a grassar por determinadas franjas da Igreja e cuja expressão mais patética aconteceu, há dias, onde seria mais imprevisível», prosseguindo: «latins e latinórios, rendinhas e rendilhados, vénias e salamaleques, por si sós, nem aquecem nem arrefecem. Mas a celebração a que me reporto terá feito mais mal à Igreja do que muitas conjuras subterrâneas ou certas orquestrações noticiosas». E termina, numa clara alusão à capa magna usada por Sua Eminência Reverendíssima o Cardeal Burke, dizendo que «andam por aí uns pavões de cauda armada que, invocando a mesma Igreja, só conhecem a linguagem dos gestos barrocos e bacocos, os rituais mais esotéricos e uma indumentária de circo composta por capas magnas estapafúrdias, caudatários e vimpas, cáligas e alamares, luvas e chirotecas, ouro e diamantes. Tudo para maior honra e glória… deles. Que não de Nosso Senhor Jesus Cristo». Falam como que se tratando de uma Igreja anquilosada ao passado e sem “cheiro a ovelha” do presente, a uma excentricidade barroco-renascentista por oposição à austeridade medieval. Como é que Mons. Wach responderia a todos esses lamentáveis mal-entendidos?     

Seria bom reler a Carta Apostólica, do Papa Francisco, Scripturæ Sacræ affectus, publicada por ocasião do XVI centenário da morte de São Jerónimo. «Jerónimo encontrou-se frequentemente envolvido em ásperas disputas pela causa da fé. O seu amor à verdade e a defesa ardente de Cristo talvez o tenham levado a algum excesso de violência verbal nas suas cartas e livros. Contudo, o objectivo que guia a sua vida é a paz: “A paz, quero-a também eu; e não só a desejo, mas imploro-a! Entendo, porém, a paz de Cristo, a paz autêntica, uma paz sem resíduos de hostilidade, uma paz que não abrigue em si a guerra; não a paz que subjuga os adversários, mas a que nos une em amizade!”. O nosso mundo precisa, mais do que nunca, do remédio da misericórdia e da comunhão. Deixai-me repetir uma vez mais: ofereçamos um testemunho de comunhão fraterna, que se torne fascinante e luminoso. “Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”. Foi o pedido que Jesus fez ao Pai numa intensa oração: “Que todos sejam um só (…) em Nós e o mundo creia”».      

Na Igreja de Deus, existem várias espiritualidades e ritos litúrgicos. Creio que todos eles devam ser respeitados, ainda que alguns possam sucumbir a um mal-entendido, devido à sua educação e sensibilidade, quanto a este ou àquele rito. Como é possível falar assim da liturgia romana celebrada por um Cardeal? Tenho dificuldade em acreditar nas observações por vós citadas. O que se diria, então, durante os encontros ecuménicos, nos quais o Patriarca de Moscovo ou o Patriarca de Constantinopla aparecem coroados com pedras preciosas, vestuários muito longos? Não vêm de um circo, mas perpetuam a grandiosa liturgia de São João Crisóstomo e dos Padres Orientais! Na grande liturgia, escreveu o Beato Cardeal Schuster: «Não é um par de sandálias ou uma corda amarrada à cintura a agradar ao Senhor ou a tornar-nos santos; o que é necessário são as virtudes íntimas correspondentes a estas práticas, tantas vezes absolutamente cerimoniais e exteriores. É por isso que São Bernardo, repreendendo a arrogância de alguns dos seus monges de Claraval para com os cluniacenses, lhes disse: “Monges vestidos de capuz e orgulhosos, temos horror de uma peliça, como se a humildade escondida sob uma peliça não fosse melhor do que o orgulho vestido com capuz!». E São Justiniano escreveu no seu tempo: «Acreditais que a humildade seja vestir roupas simples e fazer um trabalho desprezível. De forma alguma, pode sempre haver um grande orgulho escondido no profundo! Pode muito bem acontecer que, assumindo este aspecto, se queira distinguir dos outros e passar-se por melhores e mais humildes do que eles e, portanto, tudo isto pode muito bem ser simplesmente uma refinada forma de orgulho».         

Também seria muito útil ler e reler a bela meditação do Cardeal Journet, que confundiria a arrogância e a ignorância de muitas mentes orgulhosas sobre a verdadeira pobreza e a liturgia: «Cristo era pobre. Mas não cabe a nós empobrecê-lo. O dever do nosso amor é de circundá-lo com o melhor que temos. Bem-aventurados aqueles que, como a mulher de Betânia, poderão quebrar, para Ele, o vaso de alabastro e derramar nardo precioso e puro… Enquanto exalta as hierarquias da Cidade de Deus, que os esplendores da arte e da faustosidade humana têm o dever de honrar sem pretenderem ser bem-sucedidos, a Igreja exalta a pobreza, a miséria e a mortificação que dão ao mundo um São Bruno, um São Francisco de Assis, um São João da Cruz… A pompa romana e a pobreza evangélica são as duas homenagens que queremos prestar às riquezas do Cristo eterno; a primeira é uma homenagem às inimitáveis ​​riquezas pelas quais Ele permanece a causa da nossa salvação por meio da sua Igreja; a segunda é uma homenagem às imperfeitamente imitáveis riquezas através das quais Ele é, para nós, um exemplo de santidade».          

Existem também as falsas lendas historiográficas – as fake news, como diríamos hoje – sobre a Idade Média, o Barroco, etc. A propósito da arte medieval, que tantas vezes nos é apresentada como austera e nua, Bento XVI cita a inscrição gravada no portal da Basílica de Sant-Denis, a Norte de Paris, que, pelo contrário, testemunha a sua extraordinária riqueza e profusão: «Passando, vós que quereis exaltar a beleza destas portas, não vos deslumbreis nem com o ouro, nem com a magnificência, mas com o duro trabalho. Aqui brilha uma obra famosa, mas pede-se ao Céu que esta famosa obra que brilha faça resplandecer os espíritos, para que, com as verdades luminosas, se dirijam para a verdadeira luz, da qual Cristo é a verdadeira porta». Cada um seja o que é: «Deus ordenou às plantas da criação que dessem fruto, cada uma segundo a sua espécie – escreve São Francisco de Sales; assim, ordena aos cristãos, que são as plantas vivas da sua Igreja, que produzam frutos de devoção, cada um segundo a sua qualidade e vocação. A devoção deve ser exercida de maneira diferente pelo senhor, pelo artesão, pelo criado, pelo príncipe, pela viúva, pela filha, pela esposa; e não só, mas a prática da devoção deve ser adaptada às forças, às actividades e aos deveres de cada um. Pergunto-te, Filoteia, seria oportuno que o bispo quisesse ficar na solidão como os cartuxos? E se os esposos não quisessem acumular riquezas como devem fazer os capuchinhos, se o artesão estivesse na igreja o dia todo como o religioso e o religioso sempre activo em todos os tipos de encontros para o serviço do próximo como o bispo: esta devoção não seria ridícula, fora do lugar e insuportável? Este defeito, todavia, ocorre com muita frequência».         

Evitemos, assim, esta deplorável confusão e, sobretudo, tenhamos sempre uma atitude favorável para com o nosso próximo antes de julgá-lo e condená-lo, especialmente quando se trata de aparências externas. Nosso Senhor diz sobre os cristãos: «Vede como eles se amam, por este sinal os reconhecereis». Esta é, hoje, uma lição para todos nós.    

9. Por fim, pedimos a V. Rev.ª que deixe uma mensagem ao povo português, ainda esmagadoramente privado de poder assistir regularmente à Missa Tradicional e de aceder livremente aos Sacramentos de acordo com a Liturgia Tradicional.

Só posso saudar o povo português, que se pode orgulhar da sua magnífica herança cristã, dos seus santos, dos seus grandes missionários, dos seus grandes bispos. O Cardeal Siri falou-me muitas vezes da admirável figura do Cardeal Cerejeira, que foi Patriarca de Lisboa durante quase meio século! O Instituto goza, sem dúvida, de um protector português no Céu, na pessoa de D. Custódio Alvim Pereira, Arcebispo de Lourenço Marques, em Moçambique, depois de ter sido Reitor do Pontifício Colégio Português em Roma. Era um grande amigo de Gricigliano, que visitou várias vezes: deu-nos a imagem de um verdadeiro bispo e de um padre bom. Devem estar orgulhosos e gratos por este magnífico património e pelos seus dignos administradores. Há mais de cem anos, Portugal recebeu a prova do grande amor do Céu por esta Nação, porque a Mãe do Filho de Deus desceu a Fátima para enviar uma mensagem de grande relevância a todo o mundo, ainda hoje de imensa actualidade. Uno-me à oração de tantos portugueses que sofrem e oferecem: Deus responderá às suas orações! A liturgia tradicional, a que têm todo o direito, ajuda-os, certamente, a viver estes tempos difíceis, a estar com o seu Pastor, sinal da misericórdia e do amor de Deus e do próximo no mundo, como repete, muitas vezes, o Papa Francisco.