Pesados investimentos demonstram a crescente influência da China na África - Corrispondenza romana
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Pesados investimentos demonstram a crescente influência da China na África

(Outline) No Djibuti – um país minúsculo, mas estrategicamente localizado – sinais da presença da China estão por toda parte. Entidades chinesas financiaram e construíram o maior porto da África e uma ferrovia para a Etiópia. Foi lá também o local que os chineses escolheram para estabelecer sua primeira base naval militar fora do país. Agora, os investimentos chineses estão chegando ao fundo do mar, com a construção de um cabo de internet que transmitirá dados através de uma região que se estende do Quênia ao Iêmen. O cabo se conectará a um hub que hospeda servidores da internet, administrados principalmente por empresas de telecomunicações estatais da China.

Os extensos investimentos de Pequim no Djibuti representam um microcosmo de como a China rapidamente ganhou uma posição estratégica em todo o continente. Os países ocidentais, incluindo os antigos colonizadores da África, há décadas usam pacotes de ajuda robustos para alavancar acordos comerciais e de segurança, mas os projetos financiados pela China trouxeram um enorme desenvolvimento de infraestrutura em menos de uma geração.

A construção é alimentada principalmente por empréstimos dos bancos estatais da China. Rodovias pavimentadas com dinheiro chinês se espalharam por todo o continente, juntamente com enormes pontes, novos aeroportos, represas e usinas de energia – tudo isso parte da “Iniciativa Cinturão e Estrada” (Belt and Road Initiative) do presidente chinês Xi Jinping, que abrange investimentos em 152 países.

Entre 2014 e 2018, as empresas chinesas investiram em países africanos duas vezes mais do que as americanas, gastando US$ 72,2 bilhões, segundo uma análise da Ernst & Young.

“Os chineses estão pensando em longo prazo no Djibuti e na África em geral”, disse David Shinn, ex-embaixador dos EUA na Etiópia, que também foi oficial do Departamento de Estado dos EUA para o Djibuti desde o final dos anos 1960. “O Djibuti é parte de uma cadeia econômica que se estende pela margem norte do Oceano Índico, dos portos do Camboja ao Sri Lanka e ao Paquistão. Eles têm um grande plano estratégico. Nós não”.

Com essas incursões na África, a China obteve acesso a recursos minerais vitais e a um vasto mercado à procura de produtos baratos localizado no centro do mapa mundi, além de contar com o apoio de vários países amigos em organizações globais, como nas Nações Unidas (ONU).

No Djibuti, esse plano estratégico é ainda mais evidente por causa da localização do país na entrada do Mar Vermelho, onde cerca de 10% das exportações de petróleo e 20% dos produtos comerciais passam pela costa do Djibuti, de e para o canal de Suez.

Esse local o tornou um ponto de referência crucial para cabos submarinos que transmitem dados entre continentes. O investimento da China em infraestrutura de internet está acontecendo em um momento em que a região em torno do Djibuti está começando a ficar online – alguns lugares inclusive dependem totalmente do Djibuti como ponto de trânsito para transmissão de dados.

Abrindo a porta para uma pequena sala com três servidores, Habib Daoud Omar, engenheiro que gerencia o local, disse: “Você está vendo toda a internet da Somália”, referindo-se à região autônoma do norte da Somália. Em outra sala, toda a internet do Iêmen. Noventa por cento da internet da Etiópia, poderosa, mas sem litoral, passa pela sala principal.

 

Nem tudo são flores

A presença transformadora da China em tantas frentes diminuiu a dependência que muitos países africanos tinham dos governos ocidentais para se desenvolver. Mas diferente do que geralmente acontece com a ajuda vinda dos Estados Unidos, os empréstimos chineses não vem acompanhados de demandas por melhorias nos direitos humanos.

Críticos alegam que, com os empréstimos, a China cria “armadilhas de dívida” para países vulneráveis, esgotando os cofres dos governos locais e deixando faturas gigantescas para futuras gerações de contribuintes. Aqui, Djibuti mais uma vez se encaixa como exemplo: Pequim detém mais de 70% do seu produto interno bruto (PIB) em dívidas.

Há também o risco de que os bancos chineses possam assumir propriedade dos principais ativos estratégicos que construíram. Os governos africanos negaram ferozmente que tais aquisições possam acontecer, apesar do recente precedente no Sri Lanka, onde um porto foi devolvido à empresa chinesa que financiou sua construção.

O governo Trump tentou conter a crescente influência da China na África com um projeto de estímulo ao investimento privado chamado Prosper Africa. Contudo, os investimentos americanos previstos são pequenos em comparação aos empréstimos chineses.

No Djibuti, até o comandante das forças armadas dos EUA na África apelou por maior cautela ao lidar com a China. “Procuramos construir relacionamentos duradouros, não de curto prazo, nem transacionais”, disse o general Stephen J. Townsend em uma visita a Djibuti neste verão. “Lideramos com nossos valores, trabalho duro e desejo de fortalecer parcerias no continente africano”.

A principal base militar dos EUA na África, lar de 4.000 soldados e uma frota de drones não tripulados, está no Djibuti há duas décadas. Os Estados Unidos pagaram centenas de milhões de dólares em aluguel por esta base, de onde eles tentam acabar com o grupo terrorista al-Shabab na vizinha Somália. Esse dinheiro, porém, pouco ajudou a desenvolver o país.

Muitos governos africanos, incluindo o do Djibuti, expressaram esperança de maior investimento americano, mas enquanto a ajuda dos EUA não chegava, Pequim partia para a ação. E os governos africanos sem dinheiro se viraram para o oriente quase em uníssono. O líder chinês agora organiza um fórum anual sobre a Cooperação China-África, com a participação de quase todos os 54 chefes de estado da África. No lançamento do Prosper Africa em Moçambique, em 2019, os Estados Unidos não enviaram sequer um secretário de gabinete.

“Sim, nossa dívida com a China é de 71% do nosso PIB, mas precisávamos dessa infraestrutura”, disse Mahamoud Ali Youssouf, ministro de Relações Exteriores do Djibuti, em entrevista por telefone à margem de uma reunião em Nova York no início deste mês, quando Djibuti estava pressionando para conseguir um assento não permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

“Era bastante natural aumentarmos nossa parceria com a China. Nem a Europa nem a América estavam prontas para construir a infraestrutura de que precisávamos. Estamos projetando nosso país no futuro e cuidando do bem-estar de nosso povo. Até os Estados Unidos têm trilhões de dólares em dívidas com a China”, disse Youssouf.

O investimento mais significativo que a China fez no Djibuti é o Porto de Doraleh, o maior e mais profundo da África. Assim como a internet, 90% das importações da Etiópia agora transitam pelo Djibuti, dando ao país minúsculo, com uma população de menos de um milhão, influência sobre seu gigantesco vizinho de 100 milhões de habitantes.

E além de os bancos chineses controlarem o maior porto da África, as empresas chinesas são os principais usuários. “A maioria do nosso transporte é proveniente da China”, disse Aboubaker Omar Hadi, presidente da Autoridade de Portos e Zonas Francas do Djibuti.

O paradoxo para muitos nos Estados Unidos é que é precisamente o sistema político autoritário na China, muito difamado em Washington, que lhe dá uma vantagem na competição econômica. Uma ironia adicional para os formuladores de políticas americanos é que os Estados Unidos inicialmente receberam bem a presença da China no Djibuti como parte de uma força internacional para derrotar a pirataria desenfreada na região. Quase todos os investimentos da China no Djibuti vieram depois que a missão terminou.

“Comércio, investimento, política, forças armadas estão todos intimamente ligados à política externa da China – é assim que ocorre no Partido Comunista”, disse Joshua Eisenmann, especialista em China na Universidade de Notre Dame.

Os bancos americanos são muito avessos ao risco para fazer grandes empréstimos na África, onde os bancos estatais da China fazem, disse Eisenmann. Especialmente sob um governo que tem sido ambicioso para combater a China no cenário global, existe o medo de que a China possa um dia usar sua influência para dificultar o acesso americano às suas próprias bases militares em lugares como o Djibuti.

“A China tem ferramentas que o governo americano não tem – ou seja, financiamento de empréstimos apoiado pelo governo”, disse Shinn, ex-embaixador dos EUA. “Eu não ligo para o que Trump diz – o comércio americano na África está caindo de um precipício. Toda a política [americana] para a África tem essa falha central”.

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